“O Outubro Rosa me abraçou”: Cláudia Marin compartilha sua trajetória de enfrentamento ao câncer de mama
Secretária do Sindicato dos Bancários de Santa Maria e Região, Cláudia descobriu a doença aos 44 anos, durante exames de rotina, e destaca a importância do diagnóstico precoce, do acolhimento e do autocuidado.

O câncer de mama é o tipo de câncer mais frequente entre as mulheres brasileiras, desconsiderando os tumores de pele não melanoma. Segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil deve registrar 78.610 novos casos por ano entre 2026 e 2028. No Rio Grande do Sul, a projeção é de 3.790 novos diagnósticos em 2026. Os números reforçam a importância do Outubro Rosa, campanha dedicada à conscientização sobre a doença, à prevenção e ao diagnóstico precoce.
Entre as mulheres que enfrentaram a doença está Cláudia Marin, secretária do Sindicato dos Bancários de Santa Maria e Região. Em outubro de 2022, aos 44 anos, ela descobriu o câncer de mama durante a realização de exames de rotina, mesmo sem apresentar sintomas ou perceber alterações no próprio corpo.

“Eu sempre costumo dizer que o Outubro Rosa me abraçou, porque foi em outubro que eu descobri o câncer de mama durante os exames de rotina”, relata.
Na ocasião, Cláudia realizou uma ultrassonografia pela manhã, que não identificou alterações. À tarde, a mamografia revelou microcalcificações que exigiram investigação. Após novos procedimentos, veio a confirmação de um carcinoma maligno.
“Todos os anos eu fazia exames, sempre, sempre fiz e continuo fazendo, né? E foi num exame de rotina que eu descobri através da mamografia”, relembra.
Uma trajetória de tratamento e acolhimento
A descoberta deu início a uma sequência de procedimentos médicos. Em janeiro de 2023, Cláudia passou pela retirada da mama direita e, posteriormente, realizou quimioterapia, radioterapia e procedimentos de reconstrução mamária.
O tratamento exigiu que ela se afastasse do trabalho e reorganizasse completamente sua rotina. Entre os desafios enfrentados, a queda dos cabelos foi um dos momentos que mais a marcaram, tanto pela mudança na aparência quanto pela exposição da sua condição de saúde.
Ao recordar o período, Cláudia explica que seu sentimento predominante não foi o medo de morrer, mas a indignação diante da necessidade de interromper a vida cotidiana.
“Eu tinha o sentimento de raiva, porque eu sabia tudo que eu ia ter que passar. […] Parar a vida, né? Parar a vida nesse ano, naquele ano de 2023 eu parei tudo. Fiquei só fazendo tratamento.”
Durante esse processo, o acolhimento de familiares, amigos e colegas de trabalho teve um papel fundamental. O apoio foi tão presente que Cláudia chegou a organizar uma escala entre as pessoas que se disponibilizavam para acompanhá-la nas sessões de quimioterapia.
“Eu tive 100% de apoio de todo mundo. Todo mundo. Tanto é que quando eu fui fazer as ‘quimios’, era uma briga que todo mundo queria ir comigo. Eu tinha uma escala.”
Com mais de duas décadas de atuação no Sindicato, ela também destaca a tranquilidade proporcionada pelo ambiente de trabalho durante o afastamento. Para Cláudia, enfrentar uma doença grave sem a preocupação adicional de perder o emprego faz diferença no processo de recuperação.
“Faz toda a diferença. Tu imagina, tu tá passando por tudo isso e tu tá ainda na berlinda de perder teu emprego.”
Hoje, Cláudia afirma estar curada, mas segue com acompanhamento médico e medicação diária. A experiência também a aproximou de grupos de apoio, nos quais pacientes compartilham relatos, dúvidas e dificuldades. Para ela, conversar com pessoas que já passaram pelo tratamento pode ajudar a enfrentar as incertezas que acompanham o diagnóstico.
Prevenção e diagnóstico precoce
O câncer de mama pode se desenvolver sem apresentar sintomas perceptíveis em seus estágios iniciais, como ocorreu com Cláudia. Por isso, o acesso aos serviços de saúde, a informação e a realização dos exames indicados para cada situação são fundamentais.
Entre os sinais que merecem atenção estão o surgimento de nódulos nas mamas ou axilas, alterações no tamanho ou formato das mamas, mudanças na pele, retração do mamilo e saída espontânea de secreção. Conhecer o próprio corpo ajuda a identificar possíveis alterações, mas não substitui os exames de rastreamento e a avaliação profissional.
Atualmente, o Ministério da Saúde recomenda a mamografia de rastreamento a cada dois anos para mulheres de 50 a 74 anos sem sintomas. Mulheres entre 40 e 49 anos também podem realizar o exame pelo SUS, após orientação sobre seus benefícios e riscos. Diante de alterações suspeitas, a investigação diagnóstica deve ocorrer independentemente da idade.
Além do diagnóstico precoce, a adoção de hábitos saudáveis contribui para reduzir o risco de desenvolver a doença. De acordo com o INCA, cerca de 17% dos casos de câncer de mama podem ser evitados com medidas como a prática regular de atividades físicas, a manutenção do peso corporal adequado, a redução do consumo de bebidas alcoólicas e a amamentação, quando possível.

Cláudia conta que a experiência com o câncer também mudou sua relação com esses cuidados. Após o tratamento, passou a praticar atividades físicas regularmente, incorporando novos hábitos à rotina. Ao recordar o período anterior ao diagnóstico, ela reconhece que esse foi um dos aspectos aos quais gostaria de ter dedicado mais atenção.
“Eu nunca fazia atividade física. O máximo que eu fazia era caminhar. […] E faz apenas dois anos que eu tô fazendo atividade física”, relata.
Para ela, a prática passou a representar mais do que uma recomendação médica, tornando-se parte dos cuidados com a própria saúde.
Essas medidas não eliminam completamente o risco de adoecimento, mas contribuem para a promoção da saúde e a prevenção de diferentes doenças.
Cuidar da saúde também é um direito trabalhista
A conscientização sobre o câncer de mama também envolve a garantia de condições para que trabalhadoras e trabalhadores possam realizar exames preventivos sem prejuízo de suas atividades profissionais.
O artigo 473, inciso XII, da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) assegura o direito de ausência por até três dias a cada 12 meses de trabalho, sem desconto salarial, para a realização de exames preventivos de câncer devidamente comprovados.
Em abril de 2026, a Lei nº 15.377 ampliou as responsabilidades das empresas, estabelecendo a obrigatoriedade de divulgar informações sobre campanhas oficiais de conscientização, promover ações educativas e orientar os empregados sobre o acesso aos serviços de diagnóstico e o direito à ausência para exames preventivos.
A legislação reforça a importância de ambientes profissionais que contribuam para o cuidado com a saúde, tanto pela divulgação de informações quanto pelo respeito aos direitos dos trabalhadores.
Para Cláudia, que hoje compartilha sua experiência como forma de incentivar outras mulheres, uma das principais lições deixadas pelo tratamento é a importância de reservar tempo para cuidar de si.
“Acho que autocuidado. […] Se permitir não é ser egoísta, mas cuidar de si. […] Tirar um tempo para si, para fazer isso, né? Mesmo que tu trabalhe.”
A trajetória da secretária do Sindicato reforça que a conscientização sobre o câncer de mama não deve se restringir ao mês de outubro. O enfrentamento à doença passa pela informação, pelo acesso ao diagnóstico e ao tratamento, pelo acolhimento e pela garantia de direitos ao longo de todo o ano.
