Qual o tamanho dos nossos sonhos?

As coisas talvez melhorem.
São tão fortes as coisas!
Mas eu não sou as coisas e me revolto.
Carlos Drummond de Andrade
Após o encerramento de uma das campanhas salariais recentes dos bancários, um colega sugeriu a seguinte frase para ilustrar nossas camisetas: Somos do tamanho dos nossos sonhos. Sugeriu em função de uma certa apatia e pouco engajamento de alguns bancários na construção do movimento.
A partir de então usamos, seguidamente, essa frase, pois é carregada de simbolismos.
Nos provoca reflexões e novas atitudes, invoca pensarmos um pouco além do nosso quintal. Assim, é uma frase que nos inquieta. Nos destrói diante do nosso passado e do que queremos para o futuro.
Com essa frase podemos rever a nossa real participação nos movimentos sociais. Quiçá, nossa participação no mundo.
Ainda é possível sonhar e acreditar que a realidade pode ser diferente? Que a utopia está ao alcance de nossas mãos? Talvez não consigamos responder, mas podemos saber qual o tamanho dos nossos sonhos, se é que ainda teimamos em sonhar e medir sua magnitude.
Somos do tamanho dos nossos sonhos. Porque precisamos sonhar antes de medir esforços. Porque precisamos sonhar antes de subirmos numa gangorra. Porque precisamos sonhar antes de pormos o pé na estrada.
Já faz algum tempo que rebaixamos nosso horizonte utópico, mas não podemos rebaixar nosso trópico no horizonte e nossos tópicos nos acordos.
Relevamos encaminhamentos e silenciamos diante do inusitado. Estamos comprometidos com a mesmice. Somos pragmáticos quando sonhamos e não percebemos que com passos críticos e autônomos podemos ir muito adiante do imaginado. Há alguns anos a esperança venceu o medo.
Hoje, quem venceu quem? Ou será que somos nós os derrotados por não termos mais a picardia da audácia. Quantas vezes dissemos sim. Mas lá no fundo de nossa consciência queríamos dizer não.
Precisamos urgentemente rever bandeiras. Recuperar aquela velha opinião formada sobre tudo… e sobre nada. Foi assim que crescemos e fomos forjados na luta contra as injustiças e truculências descabidas. Foi nos mais profundos, sinceros e ríspidos debates que nos prontificamos a olhar o mundo ao derredor e ver que as coisas, nem sempre, são tão fortes. Porém nunca foram fáceis, mas absolutamente transponíveis.
Estamos no limbo de uma nova atitude. No limiar de uma decisão que, certamente, será sensata.
Trilharemos um caminho desbravando condutas e reivindicando propostas ou sucumbiremos ao statu quo que nós elegemos. Nesse momento repudio o silêncio e a caneta domada. Rechaço um teclado vazio. Nós necessitamos de uma oração baguala e um potro sem dono rasgando a pampa em noite de lua cheia.
Penso que nos falta ousadia. Convicção? Talvez. Mas precisamos cometer a desobediência. Eu sinto uma vontade tremenda de desobedecer. É uma antiga e adormecida veia libertária que desperta em momentos especiais. Me causa desconforto o líquido e certo e a coisa dada.
Somos complacentes em alguns momentos e isso incomoda porque nos reduz a insignificância. Carlos Lamarca encerrava seus textos com duas palavras: Ousar, vencer.
Devemos ousar no movimento sindical. Pois o que está dado não é. E não, necessariamente, continuará sendo.
Enfim, as coisas não são tão simples. Mas às vezes elas revoltam.
Athos Ronaldo Miralha da Cunha, bancário

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