A bela do sapato

Novamente aquela pasmaceira de meio de mês. Nesses anos todos de banca nas avaliações de joias, observei algumas coincidências. Uma delas é com a senha de chamada para atendimento. Ao chamar os números 24 ou 69 podia ter certeza, a história rendia.
Naquela semana eu repassava as rotinas do penhor para uma colega. Michelli, recém-formada no curso de avaliadora, fazia o estágio comigo. Eu, o ilustre orientador na agência.

Então uma divindade saiu do elevador e o penhor e a habitação – que estão no mesmo andar – pararam. Literalmente o tempo parou. Foi uma espécie de toque de recolher. Todos os olhos se voltaram para a moça. Eu não via mais nada, apenas, um par de longas e esbeltas pernas bronzeadas se aproximando do guichê. Ela não caminhava, desfilava pelo recinto. Usava uma mini-blusa amarela e uma minúscula saia vermelha. Tinha um longo cabelo preto com uma tiara também amarela. Uma versão nada convencional do socialismo soviético. No caso, era ela que derrubava os muros de nossa imaginação. O cabelo liso, como uma cascata negra, jorrava pelas costas até a cintura. Meia dúzia de pulseirinhas douradas e brincos em forma de coração. Usava um sapato preto exageradamente alto e uma bolsa também vermelha. Isso tudo foi observado pela Michelli – sentada ao meu lado –, eu só tinha olhos para as suas bem torneadas pernas.
– Tenho que pegar a senha? – perguntou com voz melosa e delicadamente apontando para a maquineta.
– Não precisa – falou Michelli.
– Precisa – falei, prevendo qual seria o número da senha.
É claro que ela pegou a senha 69 e a história recém estava começando.

Antes de dizer um oi, boa tarde ou qualquer expressão que identificasse que aquele monumento sorria e queria fazer penhor, tocou o celular.
– Não! Não é esse o número, foi engano.
Não sei o que o interlocutor da beldade falou do outro lado, mas foi um recital de: muito delicado de sua parte. Muito gentil. Ahan. Legal. Pode sim. Tudo bem. Bah! O bah ela falou quatro vezes. E um amontoado de palavras gentis. E a conversa dos dois desconhecidos se prolongou por mais de dez minutos. Enfim, desligou o celular e comentou.
– Vá que seja fazendeiro…
Com a maior sem-cerimônia, a moçoila colocou a perna em cima do guichê, com aquele baita sapato preto com uma enorme fivela dourada que, como os brincos, tinha o formato de coração. Não esqueçamos que ela estava de minissaia e o penhor em estado de graça, todos os sete avaliadores.
– Quero penhorar esse sapato porque a fivela é de ouro.
– Não existe sapato com fivela de ouro – respondi de pronto.
– Mas o moço da casa Eny disse que era folheado a ouro 18 quilates, logo, é de ouro. Então quero avaliar.
– Mas…
– Quero testar – falou a estagiária.
Estava ávida por pingar uma gotinha de ácido na fivela do sapato da moça. Não sei se para testar seus conhecimentos ou por vingança. Mas o fato é que testamos a fivela.
– Então vamos ver se realmente é ouro. A senhora…
– Senhorita.
– …Senhorita pode tirar o sapato.
O movimento que ela fez para tirar o pé de cima do guichê foi algo próximo da suprema corte do paraíso. O penhor era um silêncio só. Ninguém renovava. Ninguém avaliava. Ninguém resgatava. E todos suspiravam com os olhos nas fivelas do sapato da moça. Por alguns momentos teve dificuldade para desafivelar o sapato. Quando me prontifiquei para ajudar, ela falou a palavra que foi um balde de água fria em minha ansiedade e taquicardia.
– Consegui!!!
Incrivelmente o sapato tinha um aroma de erva doce. Michelli fez o teste e concluiu o que todo o universo e os mais de mil avaliadores concluiriam.
– Não é ouro!
– Cobre 18 – brinquei.
A moça fez um beicinho que eu achei a coisa mais lindinha do mundo. Devolvemos o sapato, mas sem antes perguntar de onde era aquele aroma de erva doce. Ela respondeu que havia passado alcoolgel nos pés. Tinha visto a entrevista do ministro da saúde recomendar o uso do álcool nas mãos, mas por segurança, passava também nos pés. E eu fiquei imaginando o porquê.
– Tchau, doutorzinha – falou para Michelli e saiu sem dar mínima bola para mim.

Encerrou o desfile na porta do elevador e o penhor voltou a sua normalidade. Então percebi que um gaúcho todo paramentado com estribos e arreios de prata aguardava atendimento. E a senha não era 24 nem 69. Mas a estampa do vivente não deixava dúvidas. Afinal, era aquela pasmaceira de meio de mês.

Athos Miralha da Cunha

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