A francesinha

Uma senhora, habitué nas dependências do penhor. Faceira, ágil e sorridente, que devia ter seus sessenta e poucos anos, aparentemente, bem-vividos.

Tinha uma atitude apressada e gestos rápidos. Os cabelos de um preto intenso, óculos fundo de garrafa e uma verruga bem na ponta do queixo.

Muito conversadeira quando vinha penhorar ou renovar algum contrato. Às vezes se atrapalhava nas datas, mas isso não era um motivo para estresse. Sorria com sua falta de memória e confusão com a papelada do penhor. Que era como se referia ao conjunto de contratos e um sem-fim de renovações que sempre trazia na bolsa.

Nos breves instantes em minha frente contou um pouco de sua vida.
Tinha o nome e sobrenome franceses. Louise Rennée du Poisson. Seus pais eram naturais da França e vieram para o Brasil dois anos antes de ela nascer. Tinha muito orgulho do sobrenome que carregava.

Quando adolescente enamorou-se de um rapaz que se chamava José Pereira, funcionário de um Banco estatal. Se apaixonou e casou com o jovem bancário Zé. Um rapazola de família humilde e muito trabalhador.

Só não aceitou trocar seu registro de batismo. Manteve o nome original. Não admitiu colocar o Pereira no sobrenome. Sendo de uma linhagem tradicional da França seria inconcebível um Pereira na família.

Após ter contado sua instigante história, concluiu.

– Imagina! Louise Rennée du Poisson Pereira. Nunca! Jamais! – o jamais com sotaque francês

– Fui a primeira mulher na cidade a não aceitar o nome do marido. – e completou. – Não me arrependo.

Dona Louise soltava o verbo quando o assunto era o seu marido. Que, segundo ela, já estava mais pra lá do que pra cá. E já fazia algum tempo. Dona Louise Rennée du Poisson também contou com picos de extremada felicidade e euforia que o velho Zé Pereira estava nas últimas. Fazia cinco anos que o velho estava nas últimas e nunca “dava jeito” como comentou em outra oportunidade.

– A gente fica numa torcida, e o malvado sai caminhando do hospital. Vê se pode?

Depois que eu fiz a consulta e ter verificado que o contrato vencia daqui a dois meses, ela pouco se importou, acomodou-se na cadeira em minha frente e começou o seu rosário de contos familiares, ou melhor, do Zé Pereira, pois ela não tinha filhos. Nunca quis ter filhos.

– Colocar filho no mundo e filho de um Zé Ninguém, era muita irresponsabilidade. E um desrespeito com a criaturinha que estaria por nascer.

“Imagina! Ter filho de um Zé Pereira”. – pensei e sorri do meu chiste.

– Imagina! Ter filho de um Zé Pereira. – falou, lendo meus pensamentos.

Então, contou que na noite anterior o Zé Pereira, seu adoentado marido que sempre estava nas últimas, disse que estava com falta de ar e que iria morrer.

– Claro que vai morrer, todo mundo morre. Eu disse pra ele. – e gargalhava do outro lado do guichê.

– É, algum dia a gente vai morrer, mas não precisamos ter pressa. – respondi.

Como não havia ninguém para ser atendido continuou com seus casos.

– Hoje, o Zé Pereira amanheceu com a pá virada, disse que tentou se matar na tarde anterior. Atravessou, bem devagarinho, a rua e nenhum carro o atropelou.

E eu ali na frente dela ouvindo aquela ladainha e com uma cara de sono.

– Agora eu pergunto: quem vai atropelar um velho atravessando uma rua, bem devagarinho?

Deu dois passos para a esquerda, bem devagarinho, imitando o velho, e repetiu.

– Quem?

– Ninguém…

– Falei pra ele. Tem que esperar vir um carro e se jogar na frente. O senhor não acha?

– É uma hipótese…

– Quem quer se matar não avisa. Aquilo não vai se matar nunca. É um cagão. E quem tem que lavar as fraldas sou eu.

Encerrou a conversa dizendo que depois de sua morte, apenas, os seus cachorros sentiriam a sua falta.
Levantou-se e saiu ligeirinha. Caminhou alguns passos apressados e voltou.

– Quando é mesmo o vencimento dos meus contratos?

Athos Miralha da Cunha, bancário

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