A Castração da Atualização Cadastral do Sr. Castro

Ele chegou pisando firme. Botas de cano alto, bem engraxadas e lustradas. Sem esporas. Bombacha larga, pregueada. Soltando os metais na caixa ao lado da porta giratória.  A guaiaca adornada de moedas e botões, fivela de prata e ouro, enfiou-a pela caixa coletora, alcançando-a aos vigilantes. Quase perdeu a bombacha, mas os reflexos estavam em dia. Segurou-a ainda a tempo de não expor o cofrinho.

Girou a porta como quem gira o pião da casa própria e adentrou a agência bancária, batendo os cascos. Recolocou a guaiaca com a ligeireza de um lambari de açude. Aguardou o chamado da ficha de atendimento (24).

Sentou-se em frente à funcionária, solícita. Ela levantou o olhar e ouviu dele um “Buenas Tarde”, o qual saiu meio rouco por sob o bigode preto e mal aparado. Retumbante.  Ela repetiu o cumprimento, com mais leveza, claro, e:

– Boa tarde, em que posso servi-lo, senhor?

– Pois olha, recebi um chasque para atualizar meu cadastro, Dona – trovejou ele.

– Muito bem, vamos lá então, senhor… Castro?
Nome dado, cadastro aberto no microcomputador ela começa, entre desatenta e apressada (dia de pico).

– Muito bem, repetiu, o endereço continua o mesmo? Telefone, o mesmo? As respostas eram uns “aham” lúgubres, meio de má vontade. Estado civil? O mesmo? Ele respondia em muxoxos.

Eis que, desatenta, ela solta a pergunta que demoliria a muralha imposta pela aparência máscula e pela voz cavernosa de respostas chochas:

– Sexo? Continua o mesmo?

O silêncio foi sepulcral. Percebendo a gafe ela esboçou um pedido de desculpas, mas já era tarde. Tremeu dos pés a cabeça quando olhou a mão do taura subindo, cofiando o bigode. Sentiu-se ansiosa como uma barata de pernas pro ar. Aguardou e as palavras proferidas sob ele (o bigode) lhe surpreenderam, tanto pela suavidade quanto pelo conteúdo:

– Não sei como percebeste querida, mas eu preciso me abrir. Careço de te contar meu segredo, podes me ouvir?

Ela entre surpresa, aliviada, temerosa e apressada só balbuciou:

– Por gentileza, segredo não. Segredo aqui só quem pode saber e guardar é o pessoal da Tesouraria.

Apesar de se sentir um tanto castradora, cortando assim o atendimento, ela pediu desculpas, pediu licença e pediu também para o colega ao lado continuar o recadastramento, sumindo pela plataforma, recobrando aos poucos a cor escondida pelo intenso rubor de sua face.

Raul Giovani Cezar Maxwell, bancário

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